Templates da Lua

Créditos

Templates da Lua - templates para blogs
Essa página é hospedada no Blogger. A sua não é?

quarta-feira, 4 de maio de 2011

O Abutre

Era um abutre que me dava grandes bicadas nos pés. Tinha já dilacerado
sapatos e meias e penetrava-me a carne. De vez em quando, inquieto,
esvoaçava à minha volta e depois regressava à faina. Passava por ali um
senhor que observou a cena por momentos e me perguntou depois como eu
podia suportar o abutre. — É que estou sem defesa – respondi. — Ele veio e
atacou-me. Claro que tentei lutar, estrangulá-lo mesmo, mas é muito forte, um
bicho destes! Ia até saltar-me à cara, por isso preferi sacrificar os pés. Como
vê, estão quase despedaçados. — Mas deixar-se torturar dessa maneira! –
disse o senhor. — Basta um tiro e pronto! — Acha que sim? – disse eu. —
Quer o senhor disparar o tiro? — Certamente – disse o senhor. — É só ir a
casa buscar a espingarda. Consegue aguentar meia hora? — Não sei lhe dizer
– respondi. Mas sentindo uma dor pavorosa, acrescentei: — De qualquer
modo, vá, peço-lhe. — Bem – disse o senhor. — Vou o mais depressa
possível. O abutre escutara tranquilamente a conversa, fitando-nos
alternadamente. Vi então que ele percebera tudo. Elevou-se com um bater de
asas e depois, empinando-se para tomar impulso, como um lançador de dardo,
enfiou-me o bico pela boca até ao mais profundo do meu ser. Ao cair senti,
com que alívio, que o abutre se engolfava impiedosamente nos abismos
infinitos do meu sangue.

Contos de Kafka

"Quando nos fechamos atrás das grades de nossas próprias casas,
para que os abutres não nos encontrem,
não nos assaltem, ou até mesmo nos matem,
estamos nos prendendo, e cada vez mais este abutre que deveria estar
atrás das grades está solto.
Muitas vezes porque sabemos que não importa o quanto falarmos ou gritamos, saem apenas sussurros, pois nada acontece.
E é assim que os abutres nos tem seus escravos!"

Nicolle Menna